

(Crédito das imagens: Kithi)
Santa Bárbara e Iansã
uma festa tradicional do povo da Bahia cultuada na Associação Egbè Cultural Senzala do Samba
Santa Bárbara e Iansã, inicialmente chamada de Oyà, anunciam a chegada das festas do verão da Bahia que somente finaliza com o carnaval. A Santa que traz o raio como símbolo e a Orixá do fogo, do vento e das tempestades anunciam o tempo bom de céu aberto para celebrar e agradecer a vida. O vermelho e branco são as cores utilizadas pelos devotos que celebram o dia 4 de dezembro na Bahia. No centro histórico de Salvador acontece a festa oficial com missa campal, procissão, caruru distribuído para a população na sede do Corpo de Bombeiros e samba de roda pelas praças, ruas e no Mercado de São Miguel. Em algumas casas também é realizado o rito de amor, fé e devoção do povo baiano.
Aqui vamos mostrar a celebração feita na Associação Egbè Cultural Senzala do Samba, em Camaçari.
Tradição feita de forma semelhante aos antepassados, que traz a raiz do catolicismo popular com as rezas cantadas e o altar, o toque dos atabaques para Iansã, o banquete denominado “caruru” que é distribuído para as pessoas presentes e o samba como finalização do festejo.
A festa de Santa Bárbara trazida em 1641 para a Bahia por Francisco Pereira Lago e Andressa Araújo, um casal português que se instalou na cidade baixa e construiu uma área de casas de aluguel e comércio, é uma celebração que se desenvolveu independente da igreja. Em meio ao centro comercial, eles construíram uma capela onde se cultuava a santa que ganhou, posteriormente, o título de “Senhora dos Mercados”.
Quando o trovão rugia forte nas terras baianas e abalava o mais bravo dos homens, era comum que os senhores europeus se juntassem aos escravos africanos para clamar proteção as Divindades em rituais de orações intermináveis, que incluía o canto do bendito, as velas acesas e a queima de ramos bentos.
Santa Bárbara, que tem na sua história a presença do raio, quando chega ao Brasil é associada a orixá iorubá Iansã que representa os raios e tempestades. Essa junção do culto e devoção as duas Divindades nasce pelo espírito de sobrevivência do povo preto que nunca se afastou das origens africanas, apesar das sete voltas dada ao redor do Baobá, de forma obrigatória, para esquecer da sua história. O tempo passou e aquele movimento que era um disfarce para cultuar a Divindade vinda de África, virou amor.
Como é próprio dos pretos e pretas velhas: acolher o que chega, transformar a dor em momentos de alegria para ganhar força e seguir resistindo. E nesse caminho de transmutação da dor está o samba.
Como diz Mestra Joseane: “Santa Bárbara é uma, Iansã é outra, mas nesse dia celebramos as duas como nos foi ensinado por tradição”.
O termo "Orixá" da nação Ketu se popularizou, mas a depender da nação podemos chamar de Nkises para a nação bantu/angola e "Voduns" para a nação Jeje.
Aqui manteremos o termo "Orixá" por ser mais conhecido.

A FESTA DE IANSÃ E SANTA BÁRBARA DA ASSOCIAÇÃO EGBÈ CULTURAL SENZALA DO SAMBA
Chegamos na Associação Egbè Cultural Senzala do Samba, Camaçari, com o por do sol e o nascer da lua nova, que surgia como um sorriso na frente da casa que hospeda a Associação, lugar criado pela Mestra Joseane, por Mestre Plínio e sua família para abrigar os diversos projetos de manutenção da cultura tradicional da Bahia, que eles trazem como pilar de sustentação da suas vidas: a memória e o fazer material e imaterial que nutre o espiritual, o físico, o emocional e o mental para enfrentar as adversidades do dia a dia.
Na casa, que também é moradia, já estava tudo pronto. Na garagem, de frente para a rua, foi montado o altar enfeitado de rosas brancas e vermelhas. No centro está a imagem católica de Santa Bárbara. A frente da Santa, a imagem de Cosme e Damião. Abaixo, dentro do pilão de Xangô, o amor de Iansã, mais rosas para enfeitar a Orixá Guerreira e a Santa de Vermelho. Compondo o altar luzes acesas em forma de velas. Ao lado do Altar os atabaques aguardam a sua hora de entrar em cena. Acima do altar dois estandartes com as frases: Salve Santa Bárbara Iansã; e Salve São Cosme, São Damião e Ibejis.
No balcão da cozinha americana o banquete de comidas tradicionais chamado “caruru” é servido para Santa Bárbara e Iansã em agradecimento pela fartura. Como nessa casa é celebrado Cosme, Damião e os Erês/Ibejis (as crianças) na mesma data, que tem a mesma iguaria como oferenda, é incluído balas de mel e doces variados no cardápio.
É chegada a hora e a celebração começa com o presente, em forma de comida, ofertado no altar para Iansã e os Ibejis. As velas são acesas e as orações católicas acompanhadas pelo som do violão são cantadas em português e em latim. Puxada por Mestre Valnei Junior e sua família a reza ressoa com a força da fé para toda a rua que está repleta de gente.
Na sequência os atabaques fazem a saudação a Oyà com os toques que seguem a tradição do candomblé e representam a Orixá. Logo depois chega a comida. O caruru é servido da seguinte forma por estar sendo ofertado também a Cosme e Damião na mesma data, fato que é exceção: primeiro comem as crianças presentes num pano branco estendido no chão da casa; depois o caruru é servido em nove alguidar de cerâmica para nove mulheres anciãs ou que são da tradição, e somente depois desse ritual é servido para todas as outras pessoas. O número nove é devido ao significado de Iansã ser mãe nove vezes.

O Caruru
Na Bahia, o caruru tanto serve para indicar uma comida feita com o quiabo cortado em pedaços miúdos, temperado com camarão, castanha de caju, amendoim e azeite de dendê; quanto para indicar o banquete com diversas iguarias oferecido em dezembro a Santa Bárbara e em setembro a Cosme e Damião. Ambos santos católicos.
No termo “caruru” para celebrar as datas de 27 de setembro e 4 de dezembro também está implícito o samba de roda e a capoeira, comum nos encontros festivos do povo preto, que forçado a convivência com povos de diversas origens, em outro país, adaptou e criou novos modos de vida para que pudesse cultivar e celebrar suas Divindades.
Assim, no caruru ofertado a Santa Bárbara e a Cosme e Damião tem várias iguarias, cada uma delas representa um ou mais Orixá. A relação do alimento como oferenda de determinado Orixá é semelhante em todas as casas de religião de matriz africana, podendo ter uma ou outra variação, conforme a nação ou a tradição dos antepassados que construíram o legado.
No Egbé Cultural o caruru é composto por: o caruru que nesse ato específico é de Santa Bárbara; feijão preto e inhame de Ogum; feijão fradinho de oxum; akarà (acarajé) de oyà; abará de xangô; cana de açúcar de Exu; pipoca de Obaluaê; arroz de Iemanjá; milho branco de Oxalá; milho vermelho, rapadura e eran (frango) de Oxóssi; batata doce de Oxum Marè e Nanã; e banana frita dos Erês.
Assim, como bem lembra, Vagner José Rocha Santos, no seu texto - O acará de Iansã na festa de Santa Bárbara: breves considerações sobre as comidas de uma festa religiosa popular em Salvador: “todos os anos, ao preparar e servir o caruru em honra à Santa Bárbara, mesmo sem saber, seus devotos reatualizam o banquete da família do rei de Oió. Se quiabo representa fartura para Xangô, o caruru é a festa da abundância.”
O Samba Chula para homenagear Oyà
O Egbé Cultural é casa tradicional do samba chula, tendo como Mestre o luthier Plínio, filho de Xangô, esposo da Mestra Sambadeira e Baiana de Acarajé Joseane, filha de Oyà. O Amor no plano físico entre os dois e o Amor no plano espiritual dos regentes dos seu Orís (cabeças) rege todo o fazer.
O samba chula, raiz do samba brasileiro, nascido nos canaviais do Recôncavo Baiano, foi passado para Mestre Plínio pelo Mestre João do Boi. Discípulo honrado de ter como Mestre um dos bambas do samba chula da Bahia, Mestre Plínio funda o Samba Chula Filhos de Oyò e segue sua trajetória cumprindo a tradição que herdou de sua ancestralidade, ao mesmo tempo, que já lança o herdeiro de sua continuidade, o jovem filho Plínio Junior que toca o Samba Chula Raiz Ancestral.
Enquanto o povo ainda saboreava as delícias da culinária tradicional das Casas de Candomblé e Umbanda, o samba chula começa a ser tocado.
O samba chula é um ritual que acompanha o fundamento das casas de candomblé e por ser assim tem regras bem definidas. Enquanto os tocadores gritam o samba ninguém pode dançar, somente apreciar a mensagem que é passada ao cantar. Quando é cessado o canto e somente os instrumentos ditam o ritmo, uma mulher (uma de cada vez) entra na roda, cumprimenta os tocadores e depois cumprimenta o público, enquanto samba. Os homens só devem dançar depois do samba chula, que é uma espécie de oração que antecede o samba corrido. Se formos alinhar com a capoeira, podemos dizer que o samba chula é a ladainha da capoeira, que ao ser cantada ninguém pode jogar, só escutar.
Alinhado dessa forma, durante o caruru de Santa Bárbara e Iansã, Mestra Joseane ia administrando quem entrava na roda, quem ficava e quem saía, mas dando oportunidade a todos dançarem e relevando a entrada daquelas pessoas que desconhecem a tradição.
Saímos antes do samba acabar por conta da hora de pegar a estrada, mas compreendemos que a celebração a Santa Bárbara e a Iansã, uma das mais antigas da Bahia, chega aos dias de hoje com tanta força e devoção por conta de ser uma tradição feita pelo povo preto e criolo que tem o hábito de agradecer e celebrar a vida de forma holística, onde a oração comunga com o samba, a comida, a capoeira e a bebida.
Eparrey Oyà. Salve Santa Bárbara!
Samba Chula Raiz Ancestral com Mestre Plínio Junior.
Samba Chula Filhos de Oyò com Mestre Plínio.
Sambadeiras